terça-feira, 11 de maio de 2010

A viagem vertical, de Enrique Vila-Matas

 

Não escrevi nada sobre esse livro que li há três anos. No entanto, considero uma das minhas obras preferidas. Guardei dois trechos nas minhas memórias de boas leituras:
 
"Sem poder evitar, voltou a mergulhar no terreno pantanoso das lembranças, a se perder no labirinto de uma memória frágil, e voltou a perceber que, quanto mais lembrava sua infância, mas se afastava de si próprio. Vagou um bom tempo de uma lembrança a outra, sempre viajando em círculos - começou a sentir desprezo, na hora de lembrar, pela linha reta, e preferiu vagar, pegar veredas, seguir eclipses e charadas, dar voltar infernais em círculo ao redor de sua própria memória -, e retomou, muito especialmente, a lembrança do último dia da sua vida em que fôra à escola."

"Como tantas vezes na vida, há sempre um segundo drama oculto - muito mais sério do que o primeiro - escondido por trás da tragédia mais óbvia, mais visível."

segunda-feira, 10 de maio de 2010

fly


permanente, só a mudança.

Além do que se vê, Marcelo Camelo

Moça, olha só o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê

Sei que a tua solidão me dói
E que é difícil ser feliz
Mais do que somos todos nós
Você supõe o céu
Sei que o vento que entortou a flor
Passou também por nosso lar
E foi você quem desviou
Com golpes de pincel

Eu sei, é o amor que ninguém mais vê
Deixa eu ver a moça
Toma o teu, voa mais
Que o bloco da família vai atrás

Põe mais um na mesa de jantar
Porque hoje eu vou praí te ver
E tira o som dessa TV
Pra gente conversar
Diz pro bamba usar o violão
Pede pro Tico me esperar
E avisa que eu só vou chegar
No último vagão

É bom te ver sorrir
Deixa vir a moça
Que eu também vou atrás
E a banda diz: assim é que se faz!

Sei que a tua solidão me dói...
Sei aquela mesa de jantar...

Altazor, Canto I, Vicente Huidobro


Caia
Caia eternamente
Caia no fundo do infinito
Caia no fundo de você mesmo
Caia o mais baixo que possa cair.

Cae
          
      Cae eternamente

Cae al fondo del infinito
Cae al fondo del tiempo

Cae al fondo de ti mismo

Cae lo más bajo que se pueda caer

domingo, 9 de maio de 2010

Alice no País das Maravilhas



Fui assistir ao filme de Tim Burton com algumas frases martelando na minha cabeça: não é tudo isso, nem aquilo o outro, meio vazio e tal. Por isso mesmo achei que fosse gostar...e gostei.

O filme não é "papo-cabeça" nem acho que deveria ser. A propósito, quando vamos assistir a uma comédia romântica saímos reclamando que o filme deveria ter sido mais cabeça e menos romântico?

Na verdade, toda forma de arte, de uma maneira ou de outra, nos faz pensar. Mesmo que não tenha essa proposta explícita como se fosse um panfleto político. Aliás, filmes ou livros chamados ideológicos, para mim, não funcionam.

Alice é um filme de fantasia e nesse ponto desempenha muito bem o seu papel.

Os enquadramentos feitos a partir dos pequenos seres que vivem no chão, como as plantas rasteiras, os cogumelos e as flores, são cenas incríveis. Talvez essa minha adoração venha por gostar tanto de Manoel de Barros que em seus poemas olha mais para as formigas do que para as estrelas.


O País das Maravilhas é um país de cores onde até mesmo os horrores se tornam maravilhas. A Rainha Vermelha com sua enorme cabeça e seus cabelos em formato de coração é a melhor personagem do filme seguida pelo Chapeleiro Maluco. A Alice é sem graça, o coelho que deveria estar sempre com pressa não aparece muito, a lagarta azul fuma ópio e o gato fuma alguma outra coisa...tudo nos remete a um mundo de fantasia, com cabeças cortadas flutuando ao redor do castelo, morcegos que sustentam lustres, cartas de copas marchando.



O figurino é impecável e os vestidos da Alice, além de originais, são um dos mais lindos que já vi no cinema.

Pra pensar? Alice resolve seus problemas na vida real a partir da viagem que faz pelo seu inconsciente. Quando precisa decidir se vai enfrentar ou não o monstro, está escolhendo entre casar com um lorde enfadonho ou não.

Deep soma mais um maluco na sua lista de personagens e Tim Burton continua nos dizendo que os loucos são as pessoas mais legais que existem. Tenho que concordar com ele...

Proust

A verdadeira viagem de descoberta consiste não em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A estrela, Ferreira Gular

Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?

Dizem que todo este nosso imenso planeta
       coberto de oceanos e montanhas
       é menos que um grão de poeira
       se comparado a uma delas

Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
                 quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
                 querido amigo,
                 e esses teus olhos azul-safira
                 com que me fitas

Tudo pode dar certo, Woody Allen

Ainda bem que adoro Woody Allen e posso considerar Tudo Pode dar Certo o último na minha escala de adoração.

Nele, Woody Allen não aprofunda nenhum dos personagens que são, por sua vez, velhos esteriótipos: a loira burra mas encantadora, o velho neurótico, hipocondríaco e genial, a mulher devota e reprimida que se transforma na versão americanizada da Simone de Beauvoir, o homem infeliz no casamento que trai a esposa e descobre que é homossexual.

Porém, tem coisas interessantes e bem engraçadas. Bóris, o protagonista, tem uma inteligência acima da média e, talvez por isso mesmo, seja neurótico e frustrado. Ele acaba um relacionameto com a mulher que ele imaginava ser a ideal, pelo menos racionalmente: bem-sucedida, inteligente, bonita. Mas quando encontra uma garota décadas mais nova do que ele e "décadas" atrás do seu QI, acaba por se apaixonar novamente quando já havia decidido isolar-se do convívio social. Faz todo sentido, já que ele passa a ter alguém para ouvir (só ouvir) suas ideias. Ela passa a reproduzir o que ele diz sem entender o que está dizendo, e muitas vezes sem fazer o menor sentido. Isso é engraçado.

Mas o melhor mesmo é a conclusão do protagonista diante da vida: "No final das contas, as aspirações românticas da nossa juventude se reduzem ao que for que funcione" (daí vem Whatever Works, o título original).

Só posso dizer que mesmo não sendo o melhor dele, ainda assim vale a pena assisti-lo. 

Firmin, de Sam Savage



A indicação para ler esse livro veio de minha irmã, leitora como eu das descobertas de livros feitas pelo meu pai, mas que também encontra preciosidades no universo literário.

Firmin é um rato que nasce nos porões de uma livraria localizada num bairro decadente de Boston nos anos 60s. Sua mãe, Mama Flo, gorda e alcoólatra, em busca de um lugar para parir, prepara um ninho feito com as páginas arrancadas do maior clássico da nossa literatura e também o menos lido de todos os tempos, Finnegans Wake, de James Joyce. De toda ninhada, Firmin é o mais fraco e nas andanças em busca de alimento, prefere devorar o acervo da livraria. Primeiramente, alimentando-se de papeis de boa qualidade e igual conteúdo. No entanto, ao aprender a ler, torna-se um leitor voraz, mas agora em outro sentido. Ele busca na leitura um sentido para sua vida.

A história é encantadora e a sua amizade com Jerry rende situações inusitadas.

O autor, Sam Savage, não é um revolucionário nem no âmbito das palavras nem na esfera da forma. O que ele faz é contar uma boa história de uma forma simples e emocionante.

Sobre o autor

Sam Savage fez doutorado em Filosofia onde foi professor. Com o tempo, abandonou ambas as profissões e trabalhou como mecânico de bicicletas, carpinteiro, pescador e tipógrafo. Enquanto era pescador, desenvolveu a sua escrita. Debaixo de mal tempo, Savage aproveitava para escrever. Após aposentar-se com 65 anos, Savage escreveu Firmin.

Curiosidades

Savage usa fatos da vida real – em Boston houve uma Scollay Square que foi demolida, houve uma livraria como a Pembroke, houve um cinema como o Rialto. Nas páginas Savage dá existência a um rato que tem consciência de ser o que é, ao mesmo tempo em que mostra sua paixão pela leitura.
   
Marca-livro

Sempre imaginei que a história de minha vida, se e quando eu a escrevesse, deveria ter uma primeira linha espetacular: alguma coisa lírica como "Lolita, luz da minha vida, fogo de minhas entranhas", de Nabokov; ou, se não conseguisse fazer algo lírico, alguma coisa dramática como "Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira" de Tolstoi. As pessoas guardam essas palavras na memória mesmo quando já esqueceram todo o resto desses livros. Quando se pensa em aberturas, porém, a melhor de todas, para mim, é o começo de O bom soldado, de Ford Madox Ford: "Esta é a história mais triste que já ouvi". Li isso dezenas de vezes, e ainda me deixa de queixo caído. Ford Madox Ford era dos Grandes.

Entre nós, Pedro Amaral



Há algo de tão bom
Entre nós, algumas
Palavras tão belas...
Que agora nem quero
Lembrar que muitas delas
Se vão como se não
Houvessem existido

Há algo de tão bom
Entre nós
Um gesto, um jeito, um tom...
Que no mais nem quero pensar:
A mim me deve bastar
Que me tenhas acontecido.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Coração final


o ponto final dá uma falsa idéia de que o texto chegou ao fim, como se fosse um grão de pó. antes fosse um coração final que pulsa. porque o texto continua vivo dentro do leitor,  tranformando-se, crescendo, pulsando. o ponto final mata o texto na melhor parte da sua vida: quando deixa o papel e passa a viver dentro de nós.

um dia, Arnaldo Antunes



1) sujar o pé de areia pra depois lavar na água
2) esperar o vaga-lume piscar outra vez
3) ouvir a onda mais distante por trás da mais próxima
4) se chover, tomar chuva
6) caminhar
7) sentir o sabor do que comer
8) ser gentil com qualquer pessoa
9) barbear-se no final da tarde
10) ao se deitar para dormir, dormir

terça-feira, 4 de maio de 2010

Abril Despedaçado, de Ismail Kadaré

O livro, de poucas páginas e de fácil leitura, nos leva a pensar através de diferentes personagens. Todos, no entanto, estão ocupados em interpretar, sentir, viver, admirar, renegar, questionar ou sobreviver sobre as regras do Kanun.

Kanun é um código moral que há séculos vem sendo transmitido, de boca a ouvido, a todos os membros da comunidade em algumas regiões da Albânia, especialmente na região montanhosa do norte, onde se passa a história contada por Ismail.

Apesar do Kanun tratar de diversos assuntos relativos à vida comunitária e privada, o livro baseia-se nos artigos mais terríveis do código, aqueles que tratam da vendeta, uma série de ações e reações para vingar o sangue de alguém.

Dentro do Kanun vive Gjorg, um montanhês afligido pela angústia de ter que vingar a morte do irmão. Durante toda leitura, espera-se que ele reflita sobre a irracionalidade daquela vendeta que assombra a sua família a centenas de gerações num rastro de sangue e aflição. O personagem já nem sabe por que mata, mas sabe para que vive.

No entanto, o que se vê é um ser humano irracional, peça de uma engrenagem milenar. Enquanto Gjorg fortalece o Kanun, Bessian Vorps, um escritor conhecido, decide passar sua lua-de-mel com a esposa nesse lugarejo ditado pelo antigo código para ver de perto as leis sendo aplicadas. O que Bessian não poderia prever é que essas leis também entrariam na sua vida, não como objeto de estudo, mas para alterar o seu destino para sempre.

Sobre o autor:
Poeta, novelista e romancista, Ismail Kadaré é o mais conhecido escritor albanês. Nasceu em 1936, na cidade de Girokastra, sul da Albânia. Entre outros livros, publicou O General do exército morto, A Fortaleza e As Frias Flores de Abril.

Curiosidades:
Etimologia da palavra cânon:
lat. canón,ònis ‘lei, regra, medida, regras de gramática, tubo de uma máquina hidráulica, contribuição, conjunto de livros sagrados reconhecidos pela Igreja como de inspiração divina’, do gr. kanôn,ónos ‘haste de junco, régua de construção, peça de maquinaria, chave de abóbada, fronteira ou limite, tipo, modelo, princípio, épocas ou períodos principais da história, regra ou modelo ou padrão gramatical de declinação, conjugação, flexão, metrificação’; ver canon-
Abril Despedaçado, de Walter Salles é inspirado no livro de Ismael. A partir do livro de Kadaré, Salles faz uma aculturação brasileira do Kanun, resultando em uma história que se passa no Brasil, em abril de 1910 e que se torna atemporal e contemporânea.

Marca-livro:
Com o canto do olho Gjorg mirou o fragmento de paisagem além da janela estreita. Lá fora corria março, meio risonho, meio gelado, com aquela perigosa luminosidade alpina que só esse mês possuía. Mais tarde viria abril, ou melhor, apenas a primeira metade.Gjorg sentiu um vazio do lado esquerdo do peito. Abril desde já se revestia de uma dor azulada…Ah, sim, abril sempre lhe causara essa impressão, de um mês um tanto incompleto. Abril dos amores, como diziam as canções. O seu abril despedaçado…

Amora


se você olhar demoradamente para uma amora, verá que dentro dela  há um tanto de amor (agora já sei como se morre de amor...). poderá até mesmo perceber que o amor mora em amora. mas se acaso você a mirar sem nada querer ver, aí sim sentirá que toda amora tem nela um quanto de aroma...e se piscar várias vezes, apertando os olhos outras tantas, terá a impressão de que toda amora te leva a roma.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Nu, Manuel Bandeira


Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Boio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

Mafalda

Aluada


Num rolar de cachos ruivos
sobre a pele branca
num olhar de raros anos
saltam duas luas mancas

Nas lagoas turvas
onde antes brilhavam estrelas
agora só há fumaça...
Nem vestígio de luas cheias

Nas águas estranhas
onde antes viviam cometas
agora só há brumada...
Nem cadência de danças caldas

Talvez alguém, noutro planeta
que ainda reflita estrelas, luares e cometas,
possa ser a água mansa onde tuas luas
mais que mancas, serão nuas.