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quarta-feira, 18 de julho de 2018

A trégua, Primo Levi




Todos os códigos morais são rígidos por definição: não admitem nuances, compromissos ou contaminações recíprocas. Devem ser acatados ou recusados em bloco. Essa é uma das principais razões pelas quais o homem é gregário e busca, mais ou menos conscientemente, a proximidade não de seu próximo genérico, mas somente de quem compartilha de suas convicções profundas (ou da falta de tais convicções). 


Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, David Foster Wallace



Agora tenho 33 anos de idade e sinto que muito tempo passou e vai passando mais rápido a cada dia. Dia após dia preciso fazer todo tipo de escolhas sobre aquilo que é bom, importante e divertido, e depois preciso conviver com o confisco de todas as outras opções que essas escolhas eliminam. E começo a perceber que à medida que o tempo ganhar ímpeto minhas escolhas vão se dar num campo mais estreito e as eliminações serão multiplicadas em ritmo exponencial até eu chegar a algum ponto de algum ramo qualquer dentre as suntuosas ramificações complexas da vida onde estarei completamente trancado e cravado num único caminho e o tempo passará voando por mim em fases de estase, atrofia e decadência até eu cair pela terceira vez, toda a luta em vão, afogado pelo tempo. É apavorante. Mas como serei trancado pelas minhas próprias escolhas, parece inevitável - se desejo ser adulto de algum jeito, preciso fazer escolhas e lamentar eliminações e tentar viver com isso.

Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway



O fanatismo é uma coisa singular. Ser fanático requer absoluta certeza de que você está correto e, nada estimula a certeza e a correção como a castidade. A castidade é inimiga da heresia. Como essa premissa se sustentaria se ele a examinasse? Talvez fosse por isso que os comunistas eram tão rigorosos quanto à boemia. Quando se está  bêbado, ou quando se fornica, ou se comete adultério, se reconhece a própria falibilidade em relação àquela tão mutável, substituta da doutrina dos apóstolos, a conduta do partido. Abaixo a boemia, o pecado de Maiakovsky.

Casei com um comunista, Philip Roth



O importante não é ficar com raiva, mas ficar com raiva das coisas certas. Eu disse a ela, olhe a questão de uma perspectiva darwinista. A raiva serve para tornar a gente eficaz. Essa é a sua função na sobrevivência. É por isso que a raiva nos foi dada. Se ela nos torna ineficazes, livre-se da raiva, feito uma batata quente.



Porque em geral as pessoas não deixam. Todo mundo está insatisfeito mas, em geral, não ir embora é o que as pessoas fazem. Sobretudo pessoas que um dia foram abandonadas por alguém, como você e seu irmão. Quem passa o que vocês dois passaram valoriza muito a estabilidade. Com certeza, exagera o seu valor. A coisa mais difícil do mundo é cortar o nó da nossa vida e ir embora. As pessoas fazem mil ajustes para se conciliar até com o comportamento mais patológico do mundo. 



- A política é o grande generalizador - disse-me Leo - e a literatura é o grande particularizador, e as duas não estão simplesmente numa relação inversa. Estão numa relação antagônica. Para a política, a literatura é decadente, débil, irrelevante, chata, equivocada, obtusa, uma coisa que não tem sentido e que na verdade não devia existir. Por quê? Porque o impulso particularizador é literatura. Como você pode ser um artista e renunciar à nuance? Mas também como é que você pode ser um político e permitir a nuance? Como artista, a nuance é a sua missão. Sua missão não é simplificar. Mesmo que você resolva escrever da maneira mais simples, à la Hemingway, a missão continua sendo a de garantir a nuance, elucidar a complicação, sugerir a contradição. E não a apagar a contradição, não negar a contradição, mas sim ver onde, no interior da contradição, se encontra o ser humano atormentado. Levar em conta o caos, garantir que ele se manifeste. Você precisa garantir que ele se manifeste. De outro modo você só faz propaganda, se não de um movimento político, de um partido político, então propaganda cretina da vida em si mesma, da vida como ela gostaria de ser divulgada. Durante os primeiros cinco, seis anos da revolução russa, os revolucionários gritavam "amor livre, o amor será livre!". Mas, quando se viram no poder, não puderam permitir nada disso. Porque o que é o amor livre? O caos. E eles não queriam o caos. Não foi por isso que fizeram a revolução gloriosa. Queriam algo cuidadosamente disciplinado, organizado, contido, cientificamente previsível, se possível. O amor livre perturba a organização, perturba a máquina social, política e cultural deles. A arte também perturba a organização. Não por ser espalhafatosamente a favor ou contra, ou mesmo sutilmente a favor ou contra. Ela perturba a organização porque ela não é generalizada. A natureza intrínseca do particular é ser particular, e a natureza intrínseca da particularidade é não se conformar. Generalizar o sofrimento: isto é o comunismo. Particularizar o sofrimento: isto é a literatura. Nesta polaridade reside o antagonismo. Manter o particular vivo num mundo simplificado e generalizante - é nesse terreno que se trava a batalha. Você não precisa escrever para legitimar o capitalismo. Você está fora de ambos. Se você é escritor, você é tão alheio a um quanto a outro. Sim, você vê diferenças e, é claro, você vê que esta merda é um pouco melhor do que a outra merda, ou que a outra merda é um pouco melhor do que esta merda. Talvez até muito melhor. Mas você vê que é tudo uma merda.Você não é um funcionário do governo. Não é um militante. Não é um crente.Você é alguém que trata o mundo e o que acontece no mundo de uma maneira muito diferente. O militante apresenta uma fé, uma grande crença que vai mudar o mundo, e o artista apresenta um produto que não tem lugar nesse mundo. É inútil. O artista, o escritor sério, traz ao mundo algo que desde o início nem mesmo estava lá. Quando Deus criou todo esse troço em sete dias, os pássaros, os rios, os seres humanos, não teve nem dez minutos para a literatura. "E então se faça a literatura. Alguns gostarão, outros ficarão obcecados por ela, desejarão fazê-la..."Não. Não. Ela não disse nada disso. Se você tivesse perguntado a Deus: "E vão existir bombeiros hidráulicos?". "Sim, existirão. Porque eles terão casas e precisarão de bombeiros." "E vão existir médicos?" "Sim. Porque eles ficarão doentes e vão precisar de médicos para lhes dar pílulas". "E a literatura? Do que você está falando? Para que isso serve? Onde é que ela se encaixa? Por favor, estou criando um universo, não uma universidade. Nada de literatura."

domingo, 1 de outubro de 2017

De repente, nas profundezas do bosque, Amós Oz




'Um olho de peixe redondo e arregalado ao máximo mirou os dois por um instante como se sugerisse a Maia e Mati que todos nós, todos os seres vivos sobre este planeta, pessoas e animais, aves, répteis, larvas e peixes, na realidade todos nós estamos bem próximos uns dos outros, apesar de todas as muitas diferenças entre nós: pois quase todos nós temos olhos para ver formas, movimentos e cores, e quase todos nós ouvimos vozes e ecos, ou pelo menos sentimos a passagem da luz e da escuridão através da nossa pele. E todos nós captamos e classificamos, sem parar, cheiros, gostos e sensações.'

'Isso e mais: todos nós sem exceção nos assustamos às vezes e até mesmo ficamos apavorados, e às vezes todos ficamos cansados, ou com fome, e cada um de nós gosta de certas coisas e detesta outras, que nos inspiram temor ou aversão. Além disso, todos nós sem exceção somos sensíveis ao extremo. E todos nós, pessoas répteis insetos e peixes, todos nós dormimos e acordamos e de novo dormimos e acordamos, todos nós nos empenhamos muito para que fique tudo bem para nós, não muito quente nem frio, todos nós sem exceção tentamos a maior parte do tempo nos preservar e nos guardar de tudo que corta, morde e fura. Pois cada um de nós pode ser amassado com facilidade. E todos nós, pássaro e minhoca, gato menino e lobo, todos nós nos esforçamos a maior parte do tempo em tomar o máximo cuidado possível contra a dor e o perigo, e apesar disso nós nos arriscamos muito sempre que saímos para correr atrás de comida, atrás de uma brincadeira e também atrás de aventuras emocionantes'

'E assim, disse Maia depois de refletir sobre esse pensamento, e assim no fundo é possível dizer que todos nós sem exceção estamos no mesmo barco: não apenas todas as crianças, não apenas toda a aldeia, não apenas todas as pessoas, mas todos os seres vivos. Todos nós. E ainda não sei dizer se as plantas são um pouco nossos parentes distantes.'

'Logo, quem debocha dos outros passageiros na realidade é um bobo que está no mesmo barco. E não existe aqui nenhum outro barco.'

'Será que o deboche é uma forma de defesa para quem lança mão dele, pois o protege do perigo da solidão? Pois quem zomba não zomba em grupo, e aquele que desperta a zombaria não fica sempre sozinho?'

Venenos de Deus, remédios do Diabo - Mia Couto



'Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.'

'Saímos para o estrangeiro quando a nossa terra já saiu de nós.'

'"Já foi bonita", pensa ele, "agora pesam-lhe os flancos como a essas mulheres que surgem de traseiro mesmo que se apresentem de frente."

'As pessoas não tem cores. Ou tem cores que não tem nome.'

'Viver é um verbo sem passado.'

'Uma coisa aprendi na vida. Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz.'

'Depois de tantos anos, deixamos de viver na casa e passamos a ser a casa onde vivemos.'


Sempre a mesma neve, sempre o mesmo tio, Herta Muller




'Cultura é um reservatório porque ela se une ao que vem em seguida.'

'Somos dependentes desses nervos, eles são os fios que nos tornam flexíveis.'

'Podemos mandar o corpo que temos à luta pela manhã. Podemos dispor dele enquanto ele está atado corretamente. Depois disso, ele é que dispõe de nós.'

'Não dá para conversar com a morte. Mas é preciso fazê-lo, com a perda.'

'Talvez a pátria não seja um lugar para os pés nem para a cabeça.'

'A literatura fala com cada um individualmente - ela é propriedade privada que permanece na cabeça. Nada mais fala de maneira tão incisiva conosco que um livro. E não espera nada em troca, exceto que pensemos e sintamos.'

'Acho que os objetos não conhecem seu material, os gestos não conhecem seus sentimentos e as palavras não conhecem a boca que fala. Mas, para nos certificarmos de nossa própria existência, precisamos dos objetos, dos gestos e das palavras.'



terça-feira, 31 de maio de 2016

O caminho estreito para os confins do Norte, Richard Flanagan




E agora ele sentia que sua vida era uma irrealidade monumental, em que tudo que não importava - ambições profissionais, a busca individual por status, a cor da vaga de estacionamento exclusiva - recebia maior importância, e tudo que de fato importava - prazer, alegria, amizade, amor - era, de alguma maneira, considerado periférico. O resultado era monótono, na maioria das vezes, e estranho em geral.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Amsterdam, Ian McEwan




"Vez por outra, olhava por cima do ombro. Conhecia bem essa sensação porque costumava fazer longas caminhadas sozinho. Havia sempre uma relutância a ser superada. Era um ato de vontade, uma luta contra o instinto, se afastar das pessoas, do abrigo, do calor e da ajuda. Um senso de escala dado pela perspectiva cotidiana dos aposentos e das ruas era de repente afrontado pelo vazio colossal. A massa de rochas que se erguia acima do vale era uma longa carranca esculpida em pedra. O silvo e o ribombar do córrego pertenciam à linguagem das ameaças. Sua disposição de espírito em franco declínio e todas as suas inclinações básicas lhe diziam que era uma tolice desnecessária seguir em frente, que ele estava cometendo um erro."

"Sabemos tão pouco sobre os outros. Permanecemos em geral submersos, como icebergs, com nossas identidades sociais visíveis projetando apenas o que temos de branco e frio."

"Depois que o trem ganhou velocidade e se afastou mais e mais de Londres, ocasionalmente o campo surgia e, com ele, vestígios de beleza, ou a memória dela, até que segundos depois o encanto se dissolvia quando um rio virava uma canal com margens de concreto ou se via uma imensa plantação de sebes e sem árvores. E haja estradas, novas estradas se insinuando sem cessar, sem pejo, como se a única coisa importante fosse ir de um lugar para outro. No que concernia ao bem-estar de qualquer outra forma de vida na Terra, o projeto humano não era apenas um fracasso, mas um erro desde o começo."

O Homem que Amava os cachorros, Leonardo Padura



"... a dor e a miséria figuram entre aquelas poucas coisas que, quando repartidas, tornam-se sempre maiores."

"Até a mais grosseira das mentiras, dita repetidamente sem que ninguém a refute, acaba por se transformar em verdade."

"A experiência ensinara-o que não é necessário empurrar as más notícias, porque o peso sempre faz com que caiam."


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Neve, de Orhan Pamuk



Agora que ambos fomos forçados ao exílio, sem ter conseguido realizar nada nem ter tido êxito em coisa alguma, nem mesmo em encontrar a felicidade, podemos pelo menos concordar que a vida foi dura! E tampouco basta ser poeta...e é por isso que a política lança sua sombra sobre nossas vidas. Mas mesmo  se tivesse dito isso, nenhum dos dois teria coragem de acrescentar o que não podiam admitir para si mesmos: é por termos falhado em encontrar a felicidade na poesia que agora sentimos nostalgia da sombra da política.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O céu em minhas mãos, Mempo Giardinelli



Às vezes, Jaime, penso que a gente podia viver numa melhor se certas coisas deixassem de ter importância. Se a gente fosse capaz de desligar, não é? De não fuçar em histórias antigas, daquelas que balançam, lá por dentro, um lugar no corpo. Bem, talvez não seja esse o problema. Talvez certas coisas sejam menos importantes do que penso e eu necessite delas como fantasmas. A gente não pode viver sem fantasmas, certo?

domingo, 4 de setembro de 2011

Em boa companhia


Um bom livro é sempre uma boa companhia. 
Ando viajando por aí, entrando e saindo de aviões. Nessas idas e vindas, chegadas e partidas, três companhias inseparáveis: meu ipod com 14 mil músicas, das quais a maioria ainda não ouvi; meu novo fone de ouvidos que comprei em Buenos Aires e que me isola do mundo das aeromoças, crianças chorando, vizinhos roncando e até mesmo do piloto falando do tempo no alto-falante; e páginas não-lidas de um bom livro. 
Assim, aquelas horas que poderiam ser perdidas olhando para o nada, acabam sendo horas musicais, de leitura fluida, de pensamentos novos, de isolamento das coisas que me aborrecem (esse verbo me lembra outro que é emburrecer...).
Talvez uma história de amor foi lido assim e posso dizer que talvez uma viagem faça mesmo a gente sair do chão.

Talvez uma história de amor, Martin Page



Você vê loucura em tudo. Com isso, evita lidar com a complexidade das coisas.
...
O cristianismo enfiou a ideia de verdade na cabeça das pessoas com o uso de torturas e tribunais de Inquisição. Mas, desde que se deixou de levar feiticeiras à fogueira, perseguir os judeus e defender a escravidão, a mentira parece bem mais adaptada à vida social.
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As conversas previsíveis sobre assuntos obrigatórios o cansavam. 
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Espontaneamente, quando imaginamos o nosso parceiro ideal, desenhamos a nós mesmos, sem as lacunas ou as fragilidades e com o sexo que mais nos convenha.
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Ninguém admitiria isso, mas o fato é que não há nada para comemorar quando nossos amigos dão certo na vida e se apaixonam, pois isso os afasta de nós. Os grupos mais sólidos de amigos se apoiam em fracassos profissionais e sentimentais.
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Há um paralelo perturbador entre o crescimento do turismo e a multiplicação de casos sentimentais. Amamos da mesma forma como viajamos, por períodos curtos e seguindo roteiros predeterminados. Apaixonamo-nos para ter lembranças, cartas, um conjunto de sensações, novas cores em nossas íris; para ter o que contar no escritório, aos nossos amigos, ao nosso psicanalista. Não existe diferença entre o amor e as viagens, pois sempre voltamos a eles.
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As compras proporcionam uma oportunidade de compartilhar uma experiência coletiva e mística. Avançamos uns ao lado dos outros. Cada um carrega sua cesta ou empurra seu carrinho. Ninguém esconde suas compras. 
As cestas revelam a nossa intimidade: ficamos sabendo de tudo sobre os nossos banheiros, sobre o que há em nossas geladeiras e a composição de nossas famílias. A exposição inocente é a regra. Ficamos nus como criancinhas, e isso não nos incomoda.
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O meio da manhã de um dia de semana é a melhor hora para saborear a singela felicidade de se sentar à mesa de um café.
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Virgile estava convencido de que as pessoas saíam juntos, casavam-se, compravam novos aparelhos eletrônicos e tinham filhos unicamente para terem assunto para conversar. No fundo, Virgile gostava mesmo era de conversar sobre a própria conversa, suas liberdades, seus limites.
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É preciso tempo para se sentir bem com o corpo do outro.
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Estamos sempre fazendo os nossos próprio reclames.
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Só existe uma forma de não nos arriscarmos a perder aqueles que poderíamos amar. É não permitindo que eles entrem em nossa vida.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A neta do Senhor Linh, de Philippe Claudel



Como a guerra arranca de um homem o cheiro da sua terra e como a solidão destrói a gente por dentro. Um livro para ler num único fôlego.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Por José Paulo Paes

Picasso

Cultura é tudo aquilo de que a gente se lembra após ter esquecido o que leu. Revela-se no modo de falar, de sentar-se, de comer, de ler um texto, de olhar o mundo. É uma atitude que se aperfeiçoa no contato com a arte. Cultura não é aquilo que entra pelos olhos, é o que modifica seu olhar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Fome, Knut Hamsun



Na minha última viagem, aproveitei para ler bastante. A pilha de livros da minha cabeceira já estava se tornando outro criado-falante. E para mim, uma viagem que não seja a trabalho, implica descansar os olhos sobre os livros.

Aos poucos vou publicando minhas impressões sobre essas leituras que também viajaram (assim como eu através delas) alguns quilômetros.

Um dos eleitos foi Fome, de Knut Hamsun, traduzido pelo Carlos Drummond de Andrade. A Ana Flores gostou tanto dessa leitura que me emprestou seu exemplar na certeza de que eu iria gostar também. A propósito, é realmente uma felicidade para mim que os amigos queiram compartilhar comigo coisas pelas quais nutrem admiração.

O livro trata de forma autobiográfica a história de um escritor miserável que percorre as ruas de Oslo, trajando farrapos, portando um resto de lápis com o qual escreve artigos para os jornais e assim consegue aplacar a fome e continuar vivendo. Enquanto isso, ele reflete sobre o sentido da vida e luta por manter os seus princípios e valores independentemente das condições subumanas a que é submetido.

Vemos a fome dilacerar o ser humano, colocando-o em situações humilhantes e aterradoras. Mas a forma como o próprio personagem vê tudo isso, às vezes com desdém, outras com ironia, amenizam a dor daquela situação extrema. Ao mesmo tempo em que ele é tomado pela insanidade, consegue manter o contato com a realidade e desse modo revela momentos de imensa lucidez.

Genial é ver a pobreza ali desvelada sem o ranço de nenhuma ideologia. Não tem discurso político nem moralista. Tem apenas a visão realista de um miserável e por isso mesmo, você acaba se sentindo um deles.

A linha traçada entre o que é  honesto e o que é preciso fazer para se manter vivo se mantém  sempre tensionada. Afinal, por quanto cada um de nós se corromperia por um prato de comida? 

A tradução é impecável e nos faz ler dois grandes autores ao mesmo tempo, Hamsun e Drummond.

Sobre o autor

Individualista, excêntrico, tímido e aparentemente desajustado, Hamsun tinha 60 anos quando aceitou ir à cerimônia de entrega do Nobel, com a condição de não ter que discursar. Mas surpreendeu a todos dizendo umas poucas palavras de encorajamento aos "jovens de todo mundo". No caminho do hotel perdeu o cheque milionário. Quando o encontraram, quis dividi-lo com os dois amigos noruegueses que o acompanharam a Estocolmo. 

Knut Hamsun foi estivador, lenhador, marinheiro, sapateiro, condutor de bonde, jornalista, cuidador de frangos. Passou fome e sofreu todo o tipo de humilhação. O escritor atormentado de Fome é ele mesmo.

Marca-livro

Continuei, implacável, a tagarelar, com o penoso sentimento de que a aborrecia; de que nenhuma de minhas palavras antingia o alvo, e apesar de tudo não parava. No fundo, posso perfeitamente ter a alma um tanto delicada, sem por isso ser um louco; há naturezas que se alimentam de bagatelas, e que são destruídas simplesmente por uma palavra dura. Insinuei que eu era uma dessas naturezas. O fato é que a pobreza aguçara em mim certas faculdades, a ponto de causar-me profundos dissabores, sim, posso lhe garantir,  profundos dissabores - ai de mim! Por outro lado, isso tem suas vantagens: até me ajuda, em certas situações. O pobre inteligente é um observador mais fino que o rico inteligente. O pobre olha em redor, a cada passo; examina, desconfiado, cada palavra das pessoas que vai encontrando; cada passo que ele próprio dá impõe a seu espírito e a seu coração uma tarefa, um dever. Tem ouvido fino, é impressionável, experiente, leva queimaduras na alma...

Curiosidades

Hamsun flertou com o nazismo e, ao final da guerra, foi preso e transferido para uma clínica psiquiátrica e depois para um asilo de velhos. Em 1947, foi julgado e condenado por suas ideias. Mas nada disso desqualifica sua obra.