Os textos publicados não terão a ordem dos livros nem tampouco dos dicionários. Virão da desordem da vida, do improviso das águas, das impressões sobre qualquer coisa. Tudo que carregue o mistério de ser letra, verso, prosa. A única lógica será não ter lógica nenhuma. Pode ser que sirva, pode ser que exista, pode ser que dê. Quem sabe?
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Passeio Suburbano, Mario Quintana
Encontrei uma menina
Que me perguntou se era verdade que
iam demolir
aquele
belíssimo pé de figueira.
Não, ela não disse belíssimo...
Foi por uma questão de ritmo que
acrescentei aqui esse
adjetivo
inútil.
Feliz de quem vive ainda no mundo
dos substantivos:
o resto é literatura...
Sorri-lhe cumplicentemente
(e tristemente)
porque me lembro que em meio ao
quintal lá de casa
havia uma paineira enorme
(ultrapassava em altura o primeiro
andar de meu quarto)
Quando florescia, era uma glória!
Talvez fosse ela que impediu que
meus sonhos de menino
solitário
tenham sido todos em preto-e-branco
Uma glória... Até que um dia
foi posta abaixo
simplesmente
"porque prejudicava o
desenvolvimento das árvores
frutíferas".
Ora, as árvores frutíferas!
Bem sabes, meninazinha, que os
nossos olhos também
precisam de alimento.
Poema Transitório, Mario Quintana
vagaroso com
vagarosas
paradas
em cada estaçãozinha
pobre
para comprar
pastéis
pés-de-moleque
sonhos
---- principalmente
sonhos!
porque as moças da
cidade vinham olhar o trem passar:
elas suspirando
maravilhosas viagens
e a gente com um
desejo súbito de ali ficar morando
sempre... Nisto,
o apito da locomotiva
e o trem se afastando
e o trem arquejando
é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é
preciso chegar...
Ah, como esta vida é
urgente!
... no entanto
eu gostava era mesmo
de partir...
e ---- até hoje ----
quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu
lugar
fecho os olhos e
sonho:
viajar, viajar
mas para parte
nenhuma...
viajar
indefinidamente...
como uma nave
espacial perdida entre as estrelas.
A Casa Grande, Mario Quintana
...mas eu queria ter nascido numa
dessas casas de meia-água
com o telhado descendo logo após as
fachadas
só de porta e janela
e que tinham, no século, o carinhoso
apelido
de cachorros sentados.
Porém nasci em um solar de leões.
(...escadarias, corredores, sótãos,
porões, tudo isso...)
Não pude ser um menino da rua...
Aliás, a casa me assustava mais do
que o mundo, lá fora.
A casa era maior do que o mundo!
E até hoje
---- mesmo depois que destruíram a
casa grande –--
até hoje eu vivo explorando os seus
esconderijos...
Cidadezinha cheia de graça..., Mario Quintana
Cidadezinha cheia
de graça…
Tão pequenina que
até causa dó!
Com seus burricos
a pastar na praça…
Sua igrejinha de
uma torre só.
—-
Nuvens que
venham, nuvens e asas,
Não param nunca
nem um segundo…
E fica a torre,
sobre as velhas casas,
Fica cismando
como é vasto o mundo!…
—-
Eu que de longe
venho perdido,
Sem pouso fixo (a triste sina!)
Ah, quem me dera
ter lá nascido!
—
Lá toda a vida
poder morar!
Cidadezinha… Tão
pequenina
Que toda cabe num
só olhar…
segunda-feira, 23 de julho de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
A sabedoria pode ser isso
Estamos sempre indo para algum lugar. Há sempre um passo adiante e outro que ficou para trás. Tudo continua no seu ritmo. A sabedoria pode estar nisso, em saber andar no mesmo passo em que estamos.
O céu em minhas mãos, Mempo Giardinelli
Às vezes, Jaime, penso que a gente podia viver numa melhor se certas coisas deixassem de ter importância. Se a gente fosse capaz de desligar, não é? De não fuçar em histórias antigas, daquelas que balançam, lá por dentro, um lugar no corpo. Bem, talvez não seja esse o problema. Talvez certas coisas sejam menos importantes do que penso e eu necessite delas como fantasmas. A gente não pode viver sem fantasmas, certo?
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Era verão
o chão, a cama e a cabeça. Faltava vento para as ideias.
sábado, 21 de janeiro de 2012
por que ler?
e por que não ler? por pura preguiça, por falta de hábito, por falta de incentivo, por mera displicência, por fazer pensar, por nos mostrar o que existe além do nosso universo, por exigir concentração, por abrir todos os caminhos, pelas múltiplas opções, por não ser imagem nem som, por isso e por aquilo e por todas as outras desculpas que impedem alguém de não abrir um livro.
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