Os textos publicados não terão a ordem dos livros nem tampouco dos dicionários. Virão da desordem da vida, do improviso das águas, das impressões sobre qualquer coisa. Tudo que carregue o mistério de ser letra, verso, prosa. A única lógica será não ter lógica nenhuma. Pode ser que sirva, pode ser que exista, pode ser que dê. Quem sabe?
terça-feira, 4 de agosto de 2015
simplesmente
se não tivesse conhecido a Lua
no lastro da Terra
tudo seria diferente
nem pior nem melhor
simplesmente
d i f e r e n t e
e assim é
para todas as coisas
da vida
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Amsterdam, Ian McEwan
"Vez por outra, olhava por cima do ombro. Conhecia bem essa sensação porque costumava fazer longas caminhadas sozinho. Havia sempre uma relutância a ser superada. Era um ato de vontade, uma luta contra o instinto, se afastar das pessoas, do abrigo, do calor e da ajuda. Um senso de escala dado pela perspectiva cotidiana dos aposentos e das ruas era de repente afrontado pelo vazio colossal. A massa de rochas que se erguia acima do vale era uma longa carranca esculpida em pedra. O silvo e o ribombar do córrego pertenciam à linguagem das ameaças. Sua disposição de espírito em franco declínio e todas as suas inclinações básicas lhe diziam que era uma tolice desnecessária seguir em frente, que ele estava cometendo um erro."
"Sabemos tão pouco sobre os outros. Permanecemos em geral submersos, como icebergs, com nossas identidades sociais visíveis projetando apenas o que temos de branco e frio."
"Depois que o trem ganhou velocidade e se afastou mais e mais de Londres, ocasionalmente o campo surgia e, com ele, vestígios de beleza, ou a memória dela, até que segundos depois o encanto se dissolvia quando um rio virava uma canal com margens de concreto ou se via uma imensa plantação de sebes e sem árvores. E haja estradas, novas estradas se insinuando sem cessar, sem pejo, como se a única coisa importante fosse ir de um lugar para outro. No que concernia ao bem-estar de qualquer outra forma de vida na Terra, o projeto humano não era apenas um fracasso, mas um erro desde o começo."
"Sabemos tão pouco sobre os outros. Permanecemos em geral submersos, como icebergs, com nossas identidades sociais visíveis projetando apenas o que temos de branco e frio."
"Depois que o trem ganhou velocidade e se afastou mais e mais de Londres, ocasionalmente o campo surgia e, com ele, vestígios de beleza, ou a memória dela, até que segundos depois o encanto se dissolvia quando um rio virava uma canal com margens de concreto ou se via uma imensa plantação de sebes e sem árvores. E haja estradas, novas estradas se insinuando sem cessar, sem pejo, como se a única coisa importante fosse ir de um lugar para outro. No que concernia ao bem-estar de qualquer outra forma de vida na Terra, o projeto humano não era apenas um fracasso, mas um erro desde o começo."
O Homem que Amava os cachorros, Leonardo Padura
"... a dor e a miséria figuram entre aquelas poucas coisas que, quando repartidas, tornam-se sempre maiores."
"Até a mais grosseira das mentiras, dita repetidamente sem que ninguém a refute, acaba por se transformar em verdade."
"A experiência ensinara-o que não é necessário empurrar as más notícias, porque o peso sempre faz com que caiam."
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Amor e seu tempo, Drummond
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em casa poro, céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em casa poro, céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Erudito e popular, José Pedro Goulart
O que não nos mata, nos torna mais fortes. - Nietzche
(O que não mata, engorda.)
Ser ou não ser, eis a questão. - Shakespeare
(Não sei se caso ou se compro uma bicicleta.)
O homem é ele e suas circunstâncias. - Ortega y Gasset
(Cada um no seu quadrado.)
Por delicadeza, perdi minha vida - Rimbaud
(Quem foi ao ar, perdeu o lugar.)
Cada momento na vida é um milagre que não se repete. - Fernando Pessoa
(Trepada adiada é trepada perdida.)
Só sei que nada sei. - Sócrates
(Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.)
O Universo é uma harmonia de contrários. - Pitágoras
(Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.)
(O que não mata, engorda.)
Ser ou não ser, eis a questão. - Shakespeare
(Não sei se caso ou se compro uma bicicleta.)
O homem é ele e suas circunstâncias. - Ortega y Gasset
(Cada um no seu quadrado.)
Por delicadeza, perdi minha vida - Rimbaud
(Quem foi ao ar, perdeu o lugar.)
Cada momento na vida é um milagre que não se repete. - Fernando Pessoa
(Trepada adiada é trepada perdida.)
Só sei que nada sei. - Sócrates
(Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.)
O Universo é uma harmonia de contrários. - Pitágoras
(Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.)
quarta-feira, 17 de junho de 2015
segunda-feira, 15 de junho de 2015
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Neve, de Orhan Pamuk
Agora que ambos fomos forçados ao exílio, sem ter conseguido realizar nada nem ter tido êxito em coisa alguma, nem mesmo em encontrar a felicidade, podemos pelo menos concordar que a vida foi dura! E tampouco basta ser poeta...e é por isso que a política lança sua sombra sobre nossas vidas. Mas mesmo se tivesse dito isso, nenhum dos dois teria coragem de acrescentar o que não podiam admitir para si mesmos: é por termos falhado em encontrar a felicidade na poesia que agora sentimos nostalgia da sombra da política.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
palavra por palavra
![]() |
| Analee Merino, Mujer Andina Alada |
talvez poesia em forma de
prosa. quem sabe uma prosa que fale de poesia. os pontos, as
vírgulas, as letras: todas do mesmo tamanho.pra você parar. respirar. absorver.
palavra por palavra. no mesmo tom, na mesma altura. que a letra se faz. pra você
mastigar. uma a uma. cada uma. das letras. sem a rapidez de quem parece que não
tem tempo. no tempo do entendimento. lentamente. devagar. há que me sentir por
inteira. completa. palavra por palavra.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Canção do dia de sempre, Mário Quintana
Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
terça-feira, 28 de abril de 2015
segunda-feira, 20 de abril de 2015
horizonte
no passo, no regaço, na chuva emaranhada
nos fios soltos de tempo
e nos momentos
aqueles
em que
o átimo
toma a forma
da hora
o céu é teto
o mar
é chão
o vento janela
e você
h o r i z o n t e
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Aprendi com o Manoel
Aprendi com o Manoel que as coisas pequenas são grandes
e que o chão com suas miudezas não é menos poético do que as estrelas
Ele me ensinou a fotografar o silêncio e a desinventar objetos
a entender os delírios do verbo e a inventar memórias
aprendi com o Manoel que a filosofia está nas coisas simples
e que o olhar para as coisas desimportantes torna a alma mais tolerante
e mesmo no dia da sua partida
aprendi com ele
que ir
não é triste
é da natureza
domingo, 9 de novembro de 2014
Hábito II
Deixei as janelas abertas
pra noite escura
entrar
Nenhuma estrela sozinha
nem aquela companhia
só a vida acesa
dos vizinhos sós
das almas em sol
pra noite escura
entrar
Nenhuma estrela sozinha
nem aquela companhia
só a vida acesa
dos vizinhos sós
das almas em sol
Hábito
Deixei a dor remota
aquela coisa antiga
de humores impregnados
sair pela janela
aberta de mim
Qualquer resquício de pó
talvez uma nota perdida
insista em ficar
entre paredes
pelos cômodos
sobre objetos tolos
pelo hábito de continuar
aquela coisa antiga
de humores impregnados
sair pela janela
aberta de mim
Qualquer resquício de pó
talvez uma nota perdida
insista em ficar
entre paredes
pelos cômodos
sobre objetos tolos
pelo hábito de continuar
Seco
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