Os textos publicados não terão a ordem dos livros nem tampouco dos dicionários. Virão da desordem da vida, do improviso das águas, das impressões sobre qualquer coisa. Tudo que carregue o mistério de ser letra, verso, prosa. A única lógica será não ter lógica nenhuma. Pode ser que sirva, pode ser que exista, pode ser que dê. Quem sabe?
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Parte de ti
pensei ter visto, entre os olhos da noite, você arrancar um pedaço de si. sonhei também que te tinha ao meu lado durante o sono e a vigília. te ouvi descer os degraus da escadaria, romper a porta, sumir com os ruídos da cidade. quedei macia nos travesseiros da noite, acomodando o meu corpo no cheiro do quarto. no meio do sonho, acordei tristonha, a procurar teu pedaço que pensei ter ouvido cair ao meu lado. era tarde da noite, era a madrugada em silêncio e eu te lendo, sorrindo em memória, colhendo graciosa uma parte de ti.
Fernando Pessoa
Paisagens, quero-as comigo.
Paisagens, quadros que são...
Ondular louro do trigo,
Faróis de sóis que sigo,
Céu mau, juncos, solidão...
Uma pela mão de Deus,
Outras pelas mãos das fadas,
Outras por acasos meus,
Outras por lembranças dadas...
Paisagens... Recordações,
Porque até o que se vê
Com primeiras impressões
Algures foi o que é,
No ciclo das sensações,
Paisagens... Enfim, o teor
Da que está aqui é a rua
Onde ao sol bom do torpor
Que na alma se me insinua
Não vejo nada melhor.
Paisagens, quadros que são...
Ondular louro do trigo,
Faróis de sóis que sigo,
Céu mau, juncos, solidão...
Uma pela mão de Deus,
Outras pelas mãos das fadas,
Outras por acasos meus,
Outras por lembranças dadas...
Paisagens... Recordações,
Porque até o que se vê
Com primeiras impressões
Algures foi o que é,
No ciclo das sensações,
Paisagens... Enfim, o teor
Da que está aqui é a rua
Onde ao sol bom do torpor
Que na alma se me insinua
Não vejo nada melhor.
Ser grande
sonhei que dividia a minha cama com os sonhos de outro alguém.que me enlaçava em braços e pernas com nuvens e que sorria dormindo.sonhei ainda que o meu sonho acordava em beijos e abraços com os sonhos dele. corri pela cama porque me tornei pequena e abri todos os livros da estante para voltar a ser grande.
Nada nem mesmo
Nada nem ninguém tem o poder de tirar a gente da gente mesmo. Tem coisas que são pra sempre.
Tu, acredite!
Tu, que me lês sem querer ter lido
Que engole minhas palavras empurradas com desgosto
Abre minha vida várias vezes ao dia
Sente tristeza quando eu sinto alegria
Faz isso pra criar o que dizer
O que ressentir, o que viver
Perde o seu tempo com o meu tempo
Chega em mim sem eu nem sei
És um fantasma, um agouro, uma chaga
Traz em si a podridão dos abutres
Feliz quando vê a carne fétida
Podre e já comida
Tu que me lês sem querer ter lido
Que decifra minhas linhas do seu jeito egoísta
Espia meus momentos mais vezes do que gostaria
Olha tudo com um prazer macabro
Vê dor onde eu vejo prazer
Faz isso pra escrever a sua vida
O que querer, pra que viver
Investe o seu tempo no meu tempo
Nem sabe que eu sempre sei
És só amor fingido
Que se alimenta do meu desejo
Sonhando com o que já tive
Sofrendo com o meu viver
Tu que me lês sem querer ter lido
Que faz dos meus escritos as suas amarguras
Escarafuncha meu viver até antes dos meus próximos
Faz deles o motivo da sua tristeza
Nem vê que ela não depende de mim
Faz isso porque não tem coragem
De ver que o seu destino não depende do meu
Que o seu amor impossível não é Romeu nem Julieta
É simplesmente falta de ser
Qualquer coisa que não aconteceu
Uma promessa desfeita
Filho morto antes mesmo de nascer
Tu que me lês sem querer ter lido
Deve agora estar me lendo talvez pela última vez
Sorvendo cada palavra que agora sim é pra você
Faz dela minha mágoa, minha tristeza
Vômito claro pra te ler
Que engole minhas palavras empurradas com desgosto
Abre minha vida várias vezes ao dia
Sente tristeza quando eu sinto alegria
Faz isso pra criar o que dizer
O que ressentir, o que viver
Perde o seu tempo com o meu tempo
Chega em mim sem eu nem sei
És um fantasma, um agouro, uma chaga
Traz em si a podridão dos abutres
Feliz quando vê a carne fétida
Podre e já comida
Tu que me lês sem querer ter lido
Que decifra minhas linhas do seu jeito egoísta
Espia meus momentos mais vezes do que gostaria
Olha tudo com um prazer macabro
Vê dor onde eu vejo prazer
Faz isso pra escrever a sua vida
O que querer, pra que viver
Investe o seu tempo no meu tempo
Nem sabe que eu sempre sei
És só amor fingido
Que se alimenta do meu desejo
Sonhando com o que já tive
Sofrendo com o meu viver
Tu que me lês sem querer ter lido
Que faz dos meus escritos as suas amarguras
Escarafuncha meu viver até antes dos meus próximos
Faz deles o motivo da sua tristeza
Nem vê que ela não depende de mim
Faz isso porque não tem coragem
De ver que o seu destino não depende do meu
Que o seu amor impossível não é Romeu nem Julieta
É simplesmente falta de ser
Qualquer coisa que não aconteceu
Uma promessa desfeita
Filho morto antes mesmo de nascer
Tu que me lês sem querer ter lido
Deve agora estar me lendo talvez pela última vez
Sorvendo cada palavra que agora sim é pra você
Faz dela minha mágoa, minha tristeza
Vômito claro pra te ler
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Wave, Tom Jobim
Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho
O resto é mar
É tudo que eu nem sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho a brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho
Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade
Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver
Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho
O resto é mar
É tudo que eu nem sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho a brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho
Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade
Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho
O resto é mar
É tudo que eu nem sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho a brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho
Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade
Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver
Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho
O resto é mar
É tudo que eu nem sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho a brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho
Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade
Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Jornal do Brasil - 31/08/2010 - Por Bolívar Torres
Demorou, mas aconteceu. E da melhor maneira possível: a obra de Raymond Carver, um dos mais influentes escritores americanos da segunda metade do século 20, ganha finalmente uma edição abrangente no país. Reunidos em um único volume e organizados em ordem cronológica, 68 contos de Raymond Carver (Companhia das Letras. 712 pp., R$ 54 - Trad. Rubens Figueiredo) compensa o vácuo editorial brasileiro, preenchido até então por apenas três publicações não tão representativas do trabalho do escritor (Short cuts, com nove contos que inspiraram o filme homônimo de Robert Altman; Fique quieta, por favor, a sua primeira coletânea, de 1976; e Iniciantes, obra póstuma que revelava a versão “sem cortes” de seu segundo livro, O que falamos quando falamos de amor, de 1981). Era, sem dúvida, muito pouco para aquele que era conhecido como o principal renovador do interesse pela short story nos Estados Unidos.
Vale quanto pesa
Quanto você ganha pra me enganar
Quanto você paga pra me ver sofrerÉ quanto você força pra me derreter
Sou forte feito cobra coral
Semente brota em qualquer local
Um velho novo cartão postal, cartão postal
Aquela madrugada deu em nada, deu em muito, deu em sol
Aquele seu desejo me deu medo, me deu força, me deu mal
Ai de mim, de nós dois
Ai de mim, de nós dois
Vale quanto pesa, reza a lesa de nós dois
Ai de mim, de nós dois
Temos um passado já marcado não podemos mentir
Beijos demorados afirmados não podemos mentir
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