terça-feira, 31 de maio de 2016

O caminho estreito para os confins do Norte, Richard Flanagan




E agora ele sentia que sua vida era uma irrealidade monumental, em que tudo que não importava - ambições profissionais, a busca individual por status, a cor da vaga de estacionamento exclusiva - recebia maior importância, e tudo que de fato importava - prazer, alegria, amizade, amor - era, de alguma maneira, considerado periférico. O resultado era monótono, na maioria das vezes, e estranho em geral.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Opinião sobre a pornografia, Wislawa Szymborska

Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
o tatear indecente de temas delicados,
a desova das ideias --- é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triângulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.
Seus olhos brilham, as faces queimam.
Um amigo desvirtua o outro.
Filhas depravadas degeneram o pai.
O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória.
Os livros que os divertem não tem figuras.
A única verdade são certas frases
marcadas com a unha ou com o lápis.

É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece.

Durante esses encontros só o chá ferve.
As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.
Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.
Dessa maneira um pé toca o chão,
o outro balança livremente no ar.
Só de vez em quando alguém se levanta,
se aproxima da janela
e pela fresta da cortina 
espia a rua.





terça-feira, 4 de agosto de 2015

simplesmente




se não tivesse conhecido a Lua
no lastro da Terra
tudo seria diferente
nem pior nem melhor

simplesmente
d i f e r e n t e

e assim é 
para todas as coisas 
da vida




segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Amsterdam, Ian McEwan




"Vez por outra, olhava por cima do ombro. Conhecia bem essa sensação porque costumava fazer longas caminhadas sozinho. Havia sempre uma relutância a ser superada. Era um ato de vontade, uma luta contra o instinto, se afastar das pessoas, do abrigo, do calor e da ajuda. Um senso de escala dado pela perspectiva cotidiana dos aposentos e das ruas era de repente afrontado pelo vazio colossal. A massa de rochas que se erguia acima do vale era uma longa carranca esculpida em pedra. O silvo e o ribombar do córrego pertenciam à linguagem das ameaças. Sua disposição de espírito em franco declínio e todas as suas inclinações básicas lhe diziam que era uma tolice desnecessária seguir em frente, que ele estava cometendo um erro."

"Sabemos tão pouco sobre os outros. Permanecemos em geral submersos, como icebergs, com nossas identidades sociais visíveis projetando apenas o que temos de branco e frio."

"Depois que o trem ganhou velocidade e se afastou mais e mais de Londres, ocasionalmente o campo surgia e, com ele, vestígios de beleza, ou a memória dela, até que segundos depois o encanto se dissolvia quando um rio virava uma canal com margens de concreto ou se via uma imensa plantação de sebes e sem árvores. E haja estradas, novas estradas se insinuando sem cessar, sem pejo, como se a única coisa importante fosse ir de um lugar para outro. No que concernia ao bem-estar de qualquer outra forma de vida na Terra, o projeto humano não era apenas um fracasso, mas um erro desde o começo."

O Homem que Amava os cachorros, Leonardo Padura



"... a dor e a miséria figuram entre aquelas poucas coisas que, quando repartidas, tornam-se sempre maiores."

"Até a mais grosseira das mentiras, dita repetidamente sem que ninguém a refute, acaba por se transformar em verdade."

"A experiência ensinara-o que não é necessário empurrar as más notícias, porque o peso sempre faz com que caiam."


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Amor e seu tempo, Drummond

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em casa poro, céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

 valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Erudito e popular, José Pedro Goulart

O que não nos mata, nos torna mais fortes. - Nietzche
(O que não mata, engorda.)

Ser ou não ser, eis a questão. - Shakespeare
(Não sei se caso ou se compro uma bicicleta.)

O homem é ele e suas circunstâncias. - Ortega y Gasset
(Cada um no seu quadrado.)

Por delicadeza, perdi minha vida - Rimbaud
(Quem foi ao ar, perdeu o lugar.)

Cada momento na vida é um milagre que não se repete. - Fernando Pessoa
(Trepada adiada é trepada perdida.)

Só sei que nada sei. - Sócrates
(Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.)

O Universo é uma harmonia de contrários. - Pitágoras
(Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Neve, de Orhan Pamuk



Agora que ambos fomos forçados ao exílio, sem ter conseguido realizar nada nem ter tido êxito em coisa alguma, nem mesmo em encontrar a felicidade, podemos pelo menos concordar que a vida foi dura! E tampouco basta ser poeta...e é por isso que a política lança sua sombra sobre nossas vidas. Mas mesmo  se tivesse dito isso, nenhum dos dois teria coragem de acrescentar o que não podiam admitir para si mesmos: é por termos falhado em encontrar a felicidade na poesia que agora sentimos nostalgia da sombra da política.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

palavra por palavra

Analee Merino, Mujer Andina Alada

talvez poesia em forma de prosa. quem sabe uma prosa que fale de poesia. os pontos, as vírgulas, as letras: todas do mesmo tamanho.pra você parar. respirar. absorver. palavra por palavra. no mesmo tom, na mesma altura. que a letra se faz. pra você mastigar. uma a uma. cada uma. das letras. sem a rapidez de quem parece que não tem tempo. no tempo do entendimento. lentamente. devagar. há que me sentir por inteira. completa. palavra por palavra.



Estrelas distraídas



Quero no escuro
Como um cego tatear
Estrelas distraídas

(Zeca Baleiro)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Companhia

Pierre Bonnard


Companhia é uma paisagem vista de dentro.

Canção do dia de sempre, Mário Quintana

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

terça-feira, 28 de abril de 2015

Tempo

Enquanto o tempo não trouxer teu abacate, amanhecerá tomate e anoitecerá mamão. [Gil, filósofo]

segunda-feira, 20 de abril de 2015

horizonte






no passo, no regaço, na chuva emaranhada 
nos fios soltos de tempo


e nos momentos 
aqueles
em que 
o átimo

toma a forma
da hora

o céu é teto

o mar 
é chão

o vento janela

e você 

h o r i z o n t e 






quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Aprendi com o Manoel



Aprendi com o Manoel que as coisas pequenas são grandes
e que o chão com suas miudezas não é menos poético do que as estrelas

Ele me ensinou a fotografar o silêncio e a desinventar objetos
a entender os delírios do verbo e a inventar memórias

aprendi com o Manoel que a filosofia está nas coisas simples
e que o olhar para as coisas desimportantes torna a alma mais tolerante

e mesmo no dia da sua partida
aprendi com ele
que ir
não é triste
é da natureza

domingo, 9 de novembro de 2014

Na passagem da tarde

na tarde ensolarada
o dia em pássaros
em sons que marcam
a passagem do dia


Hábito II

Deixei as janelas abertas
pra noite escura

entrar

Nenhuma estrela sozinha
nem aquela companhia

só a vida acesa
dos vizinhos sós
das almas em sol