terça-feira, 28 de abril de 2015

Tempo

Enquanto o tempo não trouxer teu abacate, amanhecerá tomate e anoitecerá mamão. [Gil, filósofo]

segunda-feira, 20 de abril de 2015

horizonte






no passo, no regaço, na chuva emaranhada 
nos fios soltos de tempo


e nos momentos 
aqueles
em que 
o átimo

toma a forma
da hora

o céu é teto

o mar 
é chão

o vento janela

e você 

h o r i z o n t e 






quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Aprendi com o Manoel



Aprendi com o Manoel que as coisas pequenas são grandes
e que o chão com suas miudezas não é menos poético do que as estrelas

Ele me ensinou a fotografar o silêncio e a desinventar objetos
a entender os delírios do verbo e a inventar memórias

aprendi com o Manoel que a filosofia está nas coisas simples
e que o olhar para as coisas desimportantes torna a alma mais tolerante

e mesmo no dia da sua partida
aprendi com ele
que ir
não é triste
é da natureza

domingo, 9 de novembro de 2014

Na passagem da tarde

na tarde ensolarada
o dia em pássaros
em sons que marcam
a passagem do dia


Hábito II

Deixei as janelas abertas
pra noite escura

entrar

Nenhuma estrela sozinha
nem aquela companhia

só a vida acesa
dos vizinhos sós
das almas em sol





Hábito

Deixei a dor remota
aquela coisa antiga

de humores impregnados
sair pela janela
aberta de mim

Qualquer resquício de pó
talvez uma nota perdida
insista em ficar

entre paredes
pelos cômodos
sobre objetos tolos

pelo hábito de continuar

Seco

Egon Schiele

Viver em solo seco
em séquito mudo.

Fazer oco o mundo
Dar eco à seiva

Desfilar montanhas
Alinhar o tempo

Secar a alma muda
no braço vivo

da terra.




segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Grito


El grito - Oswaldo Guayasamin

O grito deixou marcas pela pele saiu surdo junto ao som de outro gritooo
Ele foi o eco de um relâmpago surgido em outro canto
existindo sonora definitiva liturgicamente aqui

Era mais do que um grito era
um lamento de outras vozes
era o nada do vazio era
a máscara sem rosto
era um ai um ui
um tudo
o todo

a sede
o escasso
o exagero
o frio



quinta-feira, 7 de março de 2013

Cântigo Negro, José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Baú


Para onde vão as coisas não ditas?

Amour

Das coisas que se faz por amor.

temporal


tempo
às vezes é só o que precisamos

mas o tempo tem seu tempo
nem lento, nem rápido demais
(e não adianta querer apressá-lo
de birra, ele se demora mais...)

e o que nos resta é viver no segundo
que se apresenta, seja ele triste, duro
saudoso ou poeta

nos minutos das noites insones
das manhãs musicais, do vento que varre
a casa, do choro incontido que lava
a alma, do café passado, da página virada

viver até que o tempo passe e as coisas
que nos prendem ao tempo se desprendam
de nós

amiga, o que precisamos, sempre, é de tempo
(não desejo que o tempo passe logo pra vc
desejo que você passe bem pelo tempo)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Desalinhando o tempo


ela tinha caminhado
tinha chegado até ali

sem olhar fotografias
tinha desalinhado
                        as memórias
orientado o tempo
para desfazer
o que não fez





segunda-feira, 17 de setembro de 2012

um sei lá

chuva
uma torrente de pedaços de trechos de poesia de chá de dúvidas
memórias do Drummond
retratos do Manoel
rebanhos do Caeiro
pestanas da Tulipa
às vezes penso que não cabe em mim tudo
e tanto
às vezes acordo sem vontade de ser
às vezes 
nem sou