quinta-feira, 7 de março de 2013

Cântigo Negro, José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Baú


Para onde vão as coisas não ditas?

Amour

Das coisas que se faz por amor.

temporal


tempo
às vezes é só o que precisamos

mas o tempo tem seu tempo
nem lento, nem rápido demais
(e não adianta querer apressá-lo
de birra, ele se demora mais...)

e o que nos resta é viver no segundo
que se apresenta, seja ele triste, duro
saudoso ou poeta

nos minutos das noites insones
das manhãs musicais, do vento que varre
a casa, do choro incontido que lava
a alma, do café passado, da página virada

viver até que o tempo passe e as coisas
que nos prendem ao tempo se desprendam
de nós

amiga, o que precisamos, sempre, é de tempo
(não desejo que o tempo passe logo pra vc
desejo que você passe bem pelo tempo)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Desalinhando o tempo


ela tinha caminhado
tinha chegado até ali

sem olhar fotografias
tinha desalinhado
                        as memórias
orientado o tempo
para desfazer
o que não fez





segunda-feira, 17 de setembro de 2012

um sei lá

chuva
uma torrente de pedaços de trechos de poesia de chá de dúvidas
memórias do Drummond
retratos do Manoel
rebanhos do Caeiro
pestanas da Tulipa
às vezes penso que não cabe em mim tudo
e tanto
às vezes acordo sem vontade de ser
às vezes 
nem sou 







sábado, 28 de julho de 2012

Fernando Pessoa


Qualquer caminho leva a toda parte.

Antônio Machado


Para o caminhante não há caminho, caminhos se fazem ao andar.

Cervantes e Picasso

Só para mim nasceu Dom Quixote e eu para ele:
 ele para praticar ações e eu para escrevê-las. Somos um só.

Odes, Ricardo Reis


Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo...

Frida Kahlo, por Anne-Julie Aubry


Minha rua está cheia de pregões, Mario Quintana



Minha rua está cheia de pregões.
Parece que estou  vendo com os ouvidos:
“Couves! Abacaxis! Caquis! Melões!”
Eu vou sair pro Carnaval dos ruídos,

Mas vem, Anjo da Guarda… Por que pões
Horrorizado as mãos em teus ouvidos?
Anda: escutemos esses palavrões
Que trocam dois gavroches atrevidos!

Pra que viver assim num outro plano?
Entremos no bulício quotidiano…
O ritmo da rua nos convida.

Vem! Vamos cair na multidão!
Não é poesia socialista… Não,
Meu pobre Anjo… É… simplesmente… a Vida!...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A mulher do tempo

estão dizendo
na televisão 
que a massa fria
vai se encontrar 
com a massa quente

deve acontecer aí

(no meio do céu)
uma comunhão de ares
nuvens se unindo
num balé climatizado

estão dizendo que será um final de semana quente
                                                         em quase todo país
o que não dizem

(e vou dizendo)

é que não importa
a massa fria
nem o ar quente
quando 
dentro da gente 

o clima é bom.

O coração

o coração deu de giros
rodopiou feito um pobre
                            cão.

sopra o tempo

sopra...

Alfazemas

Alfazemas também são do campo.