domingo, 8 de maio de 2011

José Emilio Pacheco


Tudo o que perdestes, me disseram, é teu.

Curriculum, Mário Benedetti

A história é muito simples
você nasce
contempla atribulado 
o vermelho azul do céu
o pássaro que emigra
o primitivo inseto
que seu sapato amassará
valente


você sofre
reclama por comida
e por costume
por obrigação
chora limpo de culpas 
esgotado
até que o sono o desqualifica


você ama
se transfigura e ama
por uma eternidade tão provisória
que até o orgulho se torna terno
e o coração, profético 
se converte em escombros


você aprende
e usa o que aprendeu
para tornar-se lentamente sábio
para saber que por fim o mundo é isso
em seu melhor momento uma lembrança
em seu pior momento um desamparo
e sempre sempre
um rolo


então 
você morre

Ler poesia


Ler poesia liberta o pensamento.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Por José Paulo Paes

Picasso

Cultura é tudo aquilo de que a gente se lembra após ter esquecido o que leu. Revela-se no modo de falar, de sentar-se, de comer, de ler um texto, de olhar o mundo. É uma atitude que se aperfeiçoa no contato com a arte. Cultura não é aquilo que entra pelos olhos, é o que modifica seu olhar.

Lulu in the sky with diamonds


domingo, 17 de abril de 2011

meu retrato



com braços largos 
lado a lado 
em corpo baço
faço desse instante
o meu retrato


com ossos duros
face a face 
cabeça baixa
aspirina e nervos 
de plástico

quinta-feira, 14 de abril de 2011

entardeci, ensolarada


acordei chuvosa. entre uma nuvem e outra, entardeci, ensolarada. 
até ficar anoitecida.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

tem poesia

tem poesia no concreto
no verso de esquina
tem rima rica no asfalto
depois da chuva fria

ruelas becos e escadarias
estrofes riscadas em ruínas
escuras linhas de poeta
mapa métrico de sílabas

tem poesia no viaduto
no soneto de avenida
tem verso livre no muro
ao lado da lata vazia

ruelas becos e escadarias
estrofes riscadas em ruínas
escuras linhas de poeta
mapa métrico de sílabas

a poesia é o concreto de quem vê




quarta-feira, 30 de março de 2011

não diga nada

não diga nada não
deixe o tempo costurar
essa linha nossa trança
tua dança  meu enlevo

não diga nada nem não
pro tempo poder sarar
essa lua nosso verso
teu enredo meu fervor

tampouco pense
o tempo faz passar
sem pesar nem dó
a tristeza

e a solidão

de longe

de longe
(vou continuar)
te amando
te sonhando
te lembrando

não sei fazer diferente.

Boda Espiritual, Manuel Bandeira

Tu não estás comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...

Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra d'água.

Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...

Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...

E te amo como se ama um passarinho morto.

Hoje...


preciso ser uma menina com uma flor.

de repente


de repente, o outono.